segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quase romance - 03

Passados mais de dois meses sem ele, ela gostaria de o pensar menos, recordá-lo menos, acreditar mais que está melhor sem ele, que, afinal, não é o seu companheiro.
Se, vai-se a ver, o tempo ajuda a torná-lo numa memória, também esse malvado vai acrescentado mais e mais saudades...

domingo, 5 de abril de 2020

Receita para um dia de chuva


Tempo para o significado das coisas

Chove. O mundo à luz da chuva é intenso e brilhante.
Quando todos éramos nós e eu tinha de sair de casa, a chuva encanitava-me pelo desconforto de não ter braços nem mãos para as coisas que carregava comigo e só pensava no que não gostava.
Agora, da minha janela, observo os verdes a ficarem mais verdes, os telhados das casas a cumprirem a sua obrigação e tudo retoma o seu significado. 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Quase romance - 02

Tudo tem um fim.
Por vezes, temos a esperança que o fim se atrase, se enrede em hesitações, pequenos nadas que protelem o óbvio. 
Mas não... Quando as prioridades e o grau de investimento são diferentes, alguém de usar o final nesta f(r)ase da vida.
E assim, decidida, certa de que merece mais, de que quer o que ele não lhe consegue dar, arrancou-o de si e fê-lo partir, quem sabe se para chegar a ele próprio...

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quase romance - 01

Lentamente, tudo foi surgindo sem euforias nem expectativas. 
Conversas, por vezes monologais - ela devia fomentar no género masculino a vontade de se ouvir... - idas à praia, com sandes de ovo e melancia aos quadradinhos.
E, assim, de mansinho, ela foi reparando na sua gentileza, nos seus olhos azuis.
Estranhou que ele demorasse um mês inteiro para a beijar, como se os afetos se medissem aos meses. Ela já se teria beijado há que tempos! Mas, depois, percebeu: os lábios abrem portas de desejos inadiáveis, urgentes, pungentes e foi fruindo tudo o que ia acontecendo.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Saídas precárias

A muito custo, contando com a ajuda dos ralhetes das netas que são muito mais válidos que os meus, lá convencemos o meu pai a não ir todos os dias ao pão fresco e  comprar o jornal.
Devido à situação de pandemia que nos atormenta a todos, desde dia 13 de março que assumi as funções de moça de recados.
Ora, hoje, dia de ir à farmácia comprar medicamentos em falta para a mulher doente cá de casa, fui encarregada de vários e distantes "mandados", como se diz lá no meu Alentejo. 
Pela primeira vez, coloquei máscara e luvas para a empreitada e fui, como de costume, à hora do almoço, porque é quando não há filas tão compridas. Tenho sempre muito receio de sair de casa e poder trazer o "bicho mau" para cá, correndo o risco de contaminar os idosos do piso de baixo, pelo que limito as minhas saídas a uma vez por semana.
E lá fui eu, a respirar por detrás da máscara, sentindo-me um Darth Vader ensopado... Ainda por cima, entornava-se água dos céus! Será o universo a querer lavar o mundo deste vírus? Nah, não me parece que consiga; não tinha sabão... O uso da máscara não me fez nada sentir um heróico elemento das equipas dos cuidados de saúde e que, diariamente, arriscam a vida para tratar de quem tem  disso necessidade. Eu era só alguém infeliz e desertinha por terminar as tarefas para poder voltar para casa! 
E gastei horas em filas, porque se é verdade que, à hora de almoço, não há tanta gente a fazer compras, também há menos funcionários nos locais, visto que eles também têm de almoçar!
Até nisto deixámos de ter qualidade de vida...

terça-feira, 31 de março de 2020

31

Fui mãe há 31 anos.
Ah e tal, se fosse bonito, diria que, ser mãe foi sempre maravilhoso, que foi a plenitude da minha vida, que os filhos são a melhor coisa que me aconteceu...
Neste dia - estranho, intranquilo e inseguro por causa da pandemia que o mundo está a experienciar, em que faz 31 anos que fui mãe, digo que, ser mãe TAMBÉM foi maravilhoso, que TAMBÉM me ajudou a atingir a plenitude da minha vida e que os filhos são TAMBÉM a melhor coisa que me aconteceu.
Parabéns, minha linda, insegura e fantástica filha mais velha!
Hoje, o que eu mais queria no mundo era poder abraçar-te!


Não, não estive moribunda!

A vida acontece e, parvoeiramente, achei que podia viver sem escrever.
A verdade é que sub-vivi. 
Sim, admito, tenho conseguido tirar felicidade das coisas, mas também não...
Assim, depois de ter percebido, na plenitude do ser, de que tudo é "foi", li-me que preciso de escrever, também. Respiro, como, rio, zango-me e escrevo. Às vezes, tenho escrito só com o pensamento ou só com olhos; com o coração, também, mas escrevo...
Então, neste tempo difícil, intranquilo e estranho, voltei aqui, onde posso plenamente ser.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Rapidez

E já passaram 5 dias de férias!...
Certamente o número dos que ainda falta gozar é animador, mas estamos aqui estamos de volta às salas de aula cheias de gente, muitíssimo quentes e a cheirar a humano, com um monte de caritas que afirmam convictamente "Não queremos nada 'tar aqui, stora!". E eu a concordar com eles no meu subconsciente, mas a ter de fingir uma vontade férrea de estar ali, visto que sou a adulta, a pedagoga, o exemplo...
Chega!
Vou ver outro filme!

Prazeres genuínos

Quando, hoje, o meu pai me arranjou com muito carinho a janela de rede mosquiteira da minha cozinha, confirmei que já aproveitei quase 52 anos da minha vida na sua companhia e esse privilégio já ninguém me pode tirar!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Crença

Há que viver acreditando. Claro que é mais fácil o lamento, a "coitadinhação" de nós próprios, mas a lutar, conhecendo-nos cada vez mais e melhor podemos ultrapassar obstáculos e ser surpreendidos  pelas coisas boas da vida, independentemente da sua dimensão.

Helas!

Afinal, pode mesmo tudo acontecer!...