Ao deparar-me com com as propostas de presentes para o Dia do Pai, numa superfície comercial, lembrei-me que já não preciso de dar voltas ao miolo para comprar algo que fosse útil, ou que ele gostasse, ou que me parecesse bem, até dia 19 de março.
Estou perdida na liberdade que a partida do meu pai me deu; já não tenho ninguém para visitar no Lar nem preciso preocupar-me com o seu estado de saúde.
O meu pai amou-me profundamente. À sua maneira, eu tive sempre a certeza que podia sempre contar com ele e ele sabia que contava sempre comigo. O que era dele era meu, o que era meu era nosso. Tomamos conta um do outro desde sempre e essa vertente da nossa vida foi tacitamente aceite por nós, de forma contínua e permanente.
Tenho um orgulho imenso em ter tido como pai o homem mais honesto e mais bondoso que conheci. Aprendi com ele o valor da palavra dada, da verdade, do dever, da ternura, da alegria.
A terra continua a girar, o mundo tende a ficar cada vez mais louco, mas sei que o meu pai vai viver para sempre nos nossos corações e era desta forma que também queria ser recordada por cá. Até porque, como diz o poeta,
"Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."
Alberto Caeiro




















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