sábado, 11 de abril de 2020

Comunguemos!

Nem o vento se atrevia a respirar por entre as veredas, por entre as esquinas das casas. O céu vestiu-se de cinzento, embrulhou o sol nas nuvens e mandou-o ficar quietinho, que esperasse melhores dias. Consta que, há mais de dois mil anos atrás, morreu um homem que foi importante para alguns outros homens. Consta que foi condenado à morte injustamente, apenas por ser justo e apreciado por alguns outros homens.Nem toda a humanidade apreciou esta história. Há homens e mulheres, de outros lugares do mundo, onde, se calhar há vento e o sol brilha, que veneram outro homem e outra história. 
Mas isso não quer dizer que a generosidade, a bondade e o perdão tenham cores diferentes. Nestes tempos intranquilos e temerosos, que possamos libertar os dons de humanidade com que todos nascemos. 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Ensino vs Aprendizagem, ou vice-versa. É isto?

Este bicho mau que nos apoquenta há já que tempos e nos confina aos nossos lares não para de nos atormentar.
Já não bastava banir o toque, o beijo, teve de nos condenar ao afastamento do outro (pelo menos um metro, dizem os entendidos!), à estranheza de sermos confrontados connosco próprios a toda a hora e, agora, a nós, professores, à solidão do ensino à distância...
Eu quero lá saber do ensino à distância! Eu gosto é de ver as expressões dos meus alunos, gosto é de poder tocar-lhes nos ombros quando eles estão virados para trás, gosto é de olhar-lhes nos olhos e perceber se eles estão a entender o que estou a dizer ou o que estão a fazer, gosto é de explicar um qualquer conceito 3, 4 ou mais vezes, com gatafunhos no quadro até todos perceberem!...
A relação professor-aluno não se aconchega atrás de um qualquer dispositivo eletrónico!

Quase romance - the end

Perdoou-lhe.
Perdoou-lhe por não a querer, por não ter lutado por ela. Ninguém dá o que não tem e ele não tinha inteligência emocional suficiente para os perceber.
Perdoou-se a si mesma por tê-lo afastado, crendo que ele sentiria a sua falta e não desistiria dela, não desistiria deles, se tivesse realmente havido aquele conjunto (in)finito composto por aquele ele e por ela.
Sabia que pensava nela. No entanto, o seu orgulho e a sua insegurança não lhe permitiam a intrepidez de a chamar de volta.
Assim é a vida. E o sol levantou-se nesses dias todos. Como sempre.


terça-feira, 7 de abril de 2020

Quase romance - 04

O facto de ele não lutar por ela, validou a sua decisão de o querer arrancar de si mesma...

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Quase romance - 03

Passados mais de dois meses sem ele, ela gostaria de o pensar menos, recordá-lo menos, acreditar mais que está melhor sem ele, que, afinal, não é o seu companheiro.
Se, vai-se a ver, o tempo ajuda a torná-lo numa memória, também esse malvado vai acrescentado mais e mais saudades...

domingo, 5 de abril de 2020

Receita para um dia de chuva


Tempo para o significado das coisas

Chove. O mundo à luz da chuva é intenso e brilhante.
Quando todos éramos nós e eu tinha de sair de casa, a chuva encanitava-me pelo desconforto de não ter braços nem mãos para as coisas que carregava comigo e só pensava no que não gostava.
Agora, da minha janela, observo os verdes a ficarem mais verdes, os telhados das casas a cumprirem a sua obrigação e tudo retoma o seu significado. 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Quase romance - 02

Tudo tem um fim.
Por vezes, temos a esperança que o fim se atrase, se enrede em hesitações, pequenos nadas que protelem o óbvio. 
Mas não... Quando as prioridades e o grau de investimento são diferentes, alguém de usar o final nesta f(r)ase da vida.
E assim, decidida, certa de que merece mais, de que quer o que ele não lhe consegue dar, arrancou-o de si e fê-lo partir, quem sabe se para chegar a ele próprio...

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quase romance - 01

Lentamente, tudo foi surgindo sem euforias nem expectativas. 
Conversas, por vezes monologais - ela devia fomentar no género masculino a vontade de se ouvir... - idas à praia, com sandes de ovo e melancia aos quadradinhos.
E, assim, de mansinho, ela foi reparando na sua gentileza, nos seus olhos azuis.
Estranhou que ele demorasse um mês inteiro para a beijar, como se os afetos se medissem aos meses. Ela já se teria beijado há que tempos! Mas, depois, percebeu: os lábios abrem portas de desejos inadiáveis, urgentes, pungentes e foi fruindo tudo o que ia acontecendo.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Saídas precárias

A muito custo, contando com a ajuda dos ralhetes das netas que são muito mais válidos que os meus, lá convencemos o meu pai a não ir todos os dias ao pão fresco e  comprar o jornal.
Devido à situação de pandemia que nos atormenta a todos, desde dia 13 de março que assumi as funções de moça de recados.
Ora, hoje, dia de ir à farmácia comprar medicamentos em falta para a mulher doente cá de casa, fui encarregada de vários e distantes "mandados", como se diz lá no meu Alentejo. 
Pela primeira vez, coloquei máscara e luvas para a empreitada e fui, como de costume, à hora do almoço, porque é quando não há filas tão compridas. Tenho sempre muito receio de sair de casa e poder trazer o "bicho mau" para cá, correndo o risco de contaminar os idosos do piso de baixo, pelo que limito as minhas saídas a uma vez por semana.
E lá fui eu, a respirar por detrás da máscara, sentindo-me um Darth Vader ensopado... Ainda por cima, entornava-se água dos céus! Será o universo a querer lavar o mundo deste vírus? Nah, não me parece que consiga; não tinha sabão... O uso da máscara não me fez nada sentir um heróico elemento das equipas dos cuidados de saúde e que, diariamente, arriscam a vida para tratar de quem tem  disso necessidade. Eu era só alguém infeliz e desertinha por terminar as tarefas para poder voltar para casa! 
E gastei horas em filas, porque se é verdade que, à hora de almoço, não há tanta gente a fazer compras, também há menos funcionários nos locais, visto que eles também têm de almoçar!
Até nisto deixámos de ter qualidade de vida...

terça-feira, 31 de março de 2020

31

Fui mãe há 31 anos.
Ah e tal, se fosse bonito, diria que, ser mãe foi sempre maravilhoso, que foi a plenitude da minha vida, que os filhos são a melhor coisa que me aconteceu...
Neste dia - estranho, intranquilo e inseguro por causa da pandemia que o mundo está a experienciar, em que faz 31 anos que fui mãe, digo que, ser mãe TAMBÉM foi maravilhoso, que TAMBÉM me ajudou a atingir a plenitude da minha vida e que os filhos são TAMBÉM a melhor coisa que me aconteceu.
Parabéns, minha linda, insegura e fantástica filha mais velha!
Hoje, o que eu mais queria no mundo era poder abraçar-te!


Não, não estive moribunda!

A vida acontece e, parvoeiramente, achei que podia viver sem escrever.
A verdade é que sub-vivi. 
Sim, admito, tenho conseguido tirar felicidade das coisas, mas também não...
Assim, depois de ter percebido, na plenitude do ser, de que tudo é "foi", li-me que preciso de escrever, também. Respiro, como, rio, zango-me e escrevo. Às vezes, tenho escrito só com o pensamento ou só com olhos; com o coração, também, mas escrevo...
Então, neste tempo difícil, intranquilo e estranho, voltei aqui, onde posso plenamente ser.