quinta-feira, 5 de março de 2026

Pai













 Ao deparar-me com com as propostas de presentes para o Dia do Pai, numa superfície comercial, lembrei-me que já não preciso de dar voltas ao miolo para comprar algo que fosse útil, ou que ele gostasse, ou que me parecesse bem, até dia 19 de março.

Estou perdida na liberdade que a partida do meu pai me deu; já não tenho ninguém para visitar no Lar nem preciso preocupar-me com o seu estado de saúde.  

O meu pai amou-me profundamente. À sua maneira, eu tive sempre a certeza que podia sempre contar com ele e ele sabia que contava sempre comigo. O que era dele era meu, o que era meu era nosso. Tomamos conta um do outro desde sempre e essa vertente da nossa vida foi tacitamente aceite por nós, de forma contínua e permanente. 

Tenho um orgulho imenso em ter tido como pai o homem mais honesto e mais bondoso que conheci. Aprendi com ele o valor da palavra dada, da verdade, do dever, da ternura, da alegria.

A terra continua a girar, o mundo tende a ficar cada vez mais louco, mas sei que o meu pai vai viver para sempre nos nossos corações e era desta forma que também queria ser recordada por cá. Até porque, como diz o poeta, 

"Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é."

                                                    Alberto Caeiro 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Posso voltar a ter a minha vida

 

A tempestade Kristin tornou a minha vida num inferno, na madrugada de 28 de janeiro de 2026.

Quase um mês depois, tenho o sol literalmente a brilhar.

Apesar de tudo, tive, tenho muita sorte! Desde aquela data fatídica que a nossa vida tem sido combater a água. Tem sido uma luta dia e noite que me deixou exaurida, mas que me permitiu conhecer as mais intensas e generosas atitudes de solidariedade e entreajuda para comigo e para com a minha família!

Apesar de tudo, o universo é sábio e oferece-nos experiências que comprovam o que de melhor tem o ser humano, para nos dar força e alento para continuar a lutar e não desistir. Eu tive muita sorte, estamos bem e não houve consequências físicas para ninguém!  Todavia, ainda há muitas pessoas que não têm a sorte que eu tive e para elas vão os meus pensamentos e o meu apelo para que não desistam; continuem a lutar para recuperar as suas casas, os seus bens, as suas vidas. O sol pode ainda brilhar mais.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Desalentos


 

Há momentos em que a vida parece que nos quer mal.

Luta-se, enfrentam-se desafios que parecem não ter fim, quase que se desiste e os dias teimam em permanecer escuros e demasiadamente desafiantes.

Nos dias das tempestades, muitas pessoas "ficaram sem chão", algumas pereceram e percebemos na pele que a nossa vida pode transformar-se abruptamente para pior. 

Neste momento, luto ininterruptamente contra a água, que teima em invadir a minha casa, desde que o telhado foi levado pela malvada Kristin, num sopro da violência do vento.

E, assim, sentimo-nos invadidos na nossa intimidade, desalentados, impotentes, cansados de lutar ingloriamente. 

Com o passar dos dias e das tempestades, vejo a minha terra, Alcácer do Sal, devastada pelas cheias, choro o desalento dos meus familiares, dos meus conterrâneos que viram o rio transformar os seus lares em pântanos, repletos montes de lixo e lama. A água, sempre ela!

Tenho tido da parte de pessoas, próximas e desconhecidas, atitudes solidárias que me comovem às lágrimas e pelas quais me sinto infinitamente grata. 

Apesar de ter como abrigo um monte de lonas a fingir um telhado, de enfrentar a chuva, o vento, o desalento e o desânimo, acredito que o sol ainda vai aquecer  as nossas vidas, mesmo que demore um pouco mais ou custe um pouco mais a chegar.