segunda-feira, 15 de junho de 2020

Chão(s)



Saboreou aquelas ruas e sorveu portas e janelas da sua infância, devagarinho e carinhosamente. Detalhou os olhos nos vasos de flores, nas frestas das janelas que desnudavam cortinas discretas, nas vozes que planavam pelas sombras dos beirais.
Era a sua terra! O pedaço de chão que a viu nascer há já muito tempo...
Metade dos seus, aventaram-lhes ao solo os seus ossos, por lá; a outra metade foi para outra terra, com outras gentes, mas os mesmos céus.
Escolheu viver no meio, nem num nem noutro chão. Aqui, onde vive, sente o aconchego do lar; cada vez mais, a sua terra é só o lugar onde nasceu. Ou então não, porque aquele amor que sai do seu peito cada vez que lá vai, não a deixa não voltar.

terça-feira, 9 de junho de 2020

P-A-L-A-V-R-A-S


Gosto de palavras.
Prefiro as pequeninas, podem ser ou não redondinhas, como "colo", "lua", "sol", "mimo", "mar".
Também amo "fogo", "brisa", "raio", que ondulam sempre que as busco.
E há palavras médias, que sendo nem grandes, nem pequenas me preenchem e afagam: "abraço", "sorriso", "ternura", "toque", "memória"...
São só palavras. Ou não.

Sim, mas não

Dizem que, sonhar com alguém que amamos e que já morreu, nos dá a confirmação de que esses entes queridos são anjos no céu a velarem por nós. O meu agnosticismo fecha-me essa porta com a imagem de um diabinho e de um anjo, em cada um dos meus ombros a contradizerem-se para  me incentivarem a acreditar no que cada um defende. Curiosamente, é o diabo que me tenta a esta crendice. O meu anjo da guarda é racional e confirma-me que tudo isto é treta...
Também me disseram que, quando sonhamos com alguém que vive ainda, temos essa pessoa a pensar em nós com frequência. Diz que são as energias.... 
Perguntei aos habitantes dos meus ombros, os tais de cores e opiniões diferentes. Neste assunto, já temos o amiguinho das alturas a confirmar a coisa. 
Ora, se nem os diabos e nem os anjos de cada um se entendem, como podemos nós, simples mortais e, ainda para mais, agnósticos, acreditar, tomar uma decisão que nos apazigúe?

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Daqui


Daqui da minha janela, vejo o bailado das folhas, nos ramos das árvores. Vejo pássaros a planar, contrastando com as nuvens no céu. Lá mais ao longe, as flores alaranjadas pintalgam as romãzeira; enfeitam o quintal antes de se tornarem frutos, daqui por alguns meses. 
Ainda há limões nos limoeiros, amarelinhos e de vários tamanhos, sorrindo o seu azedume.
Daqui da minha janela, o mundo desconhece o que é estar confinado. 


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Repletas de esperança

Entrámos em confinamento na semana seguinte à Semana da Leitura; houve até várias atividades previstas que já não se realizaram. Posto isto, tínhamos livros espalhados por todas as 9 escolas do nosso agrupamento.
Assim, agora que já se desconfina alguma coisa, comecei o périplo de recolher livros, dinheiro de vendas, fazer o levantamento dos alunos que requisitaram livros para leitura domiciliária e podem mudar de agrupamento de escolas, enfim, tarefas que até poderiam dar-me alguma satisfação visto que vou às escolas, revejo pessoas com quem trabalho há já anos e que nunca mais tinha visto...
Mas não. Tirando a escola-sede, todas as outras estão vazias, ocas de vida, silenciosas em excesso. 
Uma escola é um cadinho de seres, que falam, sentem, gritam, brincam, aprendem e ensinam, até. As escolas do meu agrupamento, neste momento, são catedrais de incertezas, ainda que repletas de esperança...

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Copos



Temática aflorada esta semana e que se revestiu de alguma importância, a dimensão dos copos constantes no armário da cozinha revelou-se assunto polémico entre mim e a cria mais nova.
Sem ter ainda tido coragem de destralhar o móvel da sala de jantar, é lá que vegetam dezenas de copos de todos os tamanhos, feitios e funções. Na cozinha, empoleiram-se nas prateleiras, apenas, os que considerei necessários às rotinas da casa. 
Ora, sem eu ter entendido o motivo da reclamação escarninha, retenho apenas que "não se entende o motivo dos copos da cozinha serem todos do mesmo tamanho: ou muito grandes ou muito pequenos"!
Pasme o mundo, apesar de confinado: todos do mesmo tamanho, ou muito grandes ou muito pequenos?! 
Acredito piamente que haverá por aí outro vírus desconhecido que ataca as celulazinhas cinzentas. Ou, vai-se a ver, inflama é o nervo ótico...
(Nota da autora: esta publicação foi prometida à filha, logo após o episódio. Ou cá não estaria, pois então!)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A importância dos dedos


Ah, como são importantes os dedos! E são honestos, também, não mentem. Por isso, estico o dedo indicador e rodo-o para um lado e para o outro. Afasto a mão inteira, fecho os olhos para ver melhor e é então que passo, leve e demoradamente, o meu indicador pelo teu lábio superior. Até ao fim, para um lado e para o outro. O meu indicador já sabe de cor o teu lábio superior. Agora, desce naturalmente para o lábio inferior, o teu, pois claro, posto que é dele que tem saudades. Desenho-o com calma, assim como se fosse um pedaço de mim, desde sempre.
O caminho que os teus lábios me deram, aqui, assim, de olhos fechados, passo a passo com o meu dedo, fizeram de mim eterna peregrina da tua ausência.  

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Às vezes, é assim...




As borboletas dos meus olhos pousaram, livremente, no teu rosto imaginado e quedaram-se prisioneiras para todo o sempre... Quando a minha mão se ergue para junto dele, percebo que só estás presente em mim e não comigo. Mesmo assim, a minha mão plana e afaga-te, mima-te e desenha o perfil dos teus olhos, do teu nariz, vinca os teus lábios...
O teu rosto é uma vela acesa na ara da minha saudade. Abriste as portas dos meus olhos, deslizaste para o coração e fizeste dele o teu quintal. É de lá que espreitas o meu sorriso.
Queres ser o mar onde mergulho de prazer? 

terça-feira, 5 de maio de 2020

Dia da Língua Portuguesa, o primeiro

Há amores para todo o sempre. O meu amor pela minha língua é para todo o meu sempre. Quando decidi que queria ser professora, hesitei entre a História e o Português. E até nesse momento o meu idioma ganhou!
Gosto de pensar as palavras. Gosto de pensar nas palavras. E, depois, usá-las, possui-las, oferecê-las, construí-las, desconstruí-las... 
E a treta de que "uma imagem vale mais do que mil palavras" só se impõe porque as palavras habitam a imagem! A imagem só vive quando transformamos em palavras o que vemos, sentimos, desejamos... Tretas!
"Imenso", por exemplo. Estarei a sentir um desejo assim? É um olhar que estou a descrever? Falarei de desejo? Afinal, pode ser só um gelado? É o mar? 
Ah, as palavras!...
Viva a língua portuguesa!
Vivam todos os povos que falam português!
Viva quem quer aprender português!


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Meia feliz

A minha cocozinha mais nova vai ter de ficar ainda mais um mês a trabalhar em casa. Então, lá lhe disse que se ainda não tinha adoecido depois de 6 semanas fechada em casa do pai, certamente o bicho não tinha querido nada com ela. Que viesse para casa, para o pé de mim, que sou sua mãe e não tenho tido nenhuma filha por perto para implicar. 
Consegui convencê-la e fui buscá-la no sábado.
Agora, já só me afogo em saudades da cria mais velha, que não vejo há 2 meses...
Atingi a meia felicidade, pois então!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro, o possível

Quando eu era miúda, há muitíssimo tempo atrás, não tinha livros em casa. Os meus pais têm ambos a 4.ª classe e nunca lhes deram valor (apesar de valorizarem o conhecimento...). Então, eu ia buscar livros emprestados a um pólo itinerante da biblioteca da Gulbenkian que existia na minha terra. Comecei a ser freguesa da biblioteca mal aprendi a ler. Aliás, acho que aprendi a ler para poder lá ir requisitar livros...  
Depois, a vida começou a ficar mais desafogada e já nos era possível comprar livros na terra para onde fomos morar, tinha eu 8 anos. Não podíamos comprar muitos, mas os amigos emprestavam uns aos outros (juntamente com os discos, eram uma forma excelente de nos visitarmos - Ó mãe, vou ali a casa da Gina levar este livro que ela me emprestou! Uma vez, zanguei-me com o namorado, deixei-o a falar sozinho e fui para  casa. A desculpa que ele arranjou para me lá ir bater à porta sem que a minha mãe desconfiasse, foi fingir que me ia emprestar uns discos!... Isto foi há mil anos atrás, bem entendido...). 
Também há mil anos atrás, passei a comprar livros em segunda mão, numa barbearia que era dois em um, tratava de barbas e cabelos e vendia-nos os livros a preços simpáticos. Nessa altura, papei de tudo, desde os clássicos aos livros de cowboys e romances de amor!
Não consigo quantificar o número de livros que já li; tampouco consigo imaginar quantos ainda gostaria de ter lido.
Se eu podia viver sem livros? Não, não podia!
Vivam os livros, os escritores e quem os ama!


terça-feira, 21 de abril de 2020

Gosto do som da tua voz



Gosto do som da tua voz 
ao telefone.
É suave,
intenso,
pleno...

Quando conversamos,
ao telefone,
só a tua voz permanece.
Não me distraio
com os teus olhos,
com os teus lábios...

Então,
a tua voz
invade
o meu corpo,
preenche-o,
apazigua-o.

                                                Maio 2006