domingo, 24 de janeiro de 2021

A vida é como as bananas

Para além das notícias diárias agastantes do país, do mundo, em geral, é raro o dia em que não sei de alguém que está doente ou que partiu. E, nestes tempos estranhos e maus, a nossa ansiedade oscila entre o medo e a revolta, presentes no nosso quotidiano, ofuscando a nossa liberdade, o livre arbítrio que nos guiava por entre as veredas da vida.

Agora, a desconfiança e o desagrado oprimem cada uma das nossas decisões, como se isso fosse normal, o tal "novo normal", que mais não é que a anormalidade em que sobrevivemos.

Preocupa-me o mundo em que as minhas filhas viverão; entristece-me esta vida que o meu pai leva, agora, depois de mais de oitenta anos por cá, cheios de genica, de objetivos. Vejo-os perdidos, entristecidos e eu, que sempre cuidei de gente, aflige-me não poder descuidar deles...

E o que mais me dói é a incerteza da próxima hora! Gostava de ir ver o mar...




domingo, 10 de janeiro de 2021

Não, não gosto deste mundo

Há pouco, fui levar a filha mais nova ao autocarro.

Vi 2 pessoas a correr, separadamente, e 2 a caminhar, lado a lado, com máscara. Os carros eram 2 ou 3, numa pressa. Ninguém se assomou à janela.

Depois, depois vi ruas vazias, portas fechadas, grades de lojas corridas. Vi silêncio e vi desalento. Vi a minha cidade no presente e deixei-a escorrer inteira numa lágrima teimosa.

Não gosto deste mundo!

                                             Imagem: Anton Petrus/Getty Images



 

domingo, 3 de janeiro de 2021

2021

 Cá está o novo ano, fresquinho e lavado pela chuva, neste inverno das nossas vidas.

Muita gente tem muita esperança neste ano que acabou de chegar. Eu não.  Não tem a ver com o grau de infelicidade que envolve o mundo e que nos amarra à necessidade de manter a distância, que nos cerceou o toque, que nos impede de ver sorrisos. Sendo certo que as nossas vidas estão diferentes e menos boas, não nos podemos esquecer que a humanidade já passou por muito pior. Nós temos conforto, temos saúde, temos as nossas necessidades básicas asseguradas...

Passei/passámos por desgostos e contratempos que nos sugaram a alma, mas, olhando em volta, temos tanto! Ainda. 

Rejubilemos, pois, e sejamos gratos, não colocando o ónus em ano nenhum, seja ele velho ou novo.



quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Publicidade ao que é importante

 Cada vez mais, acredito que as aprendizagens dos meus alunos têm de ser significantes para eles e, na minha opinião, o trabalho de projeto propicia-o bastante.

Este ano, estranho e mau, deu origem a muitos desabafos e várias reflexões sobre a forma como levamos a vida e convidei os meus miúdos a selecionarem palavras, das quais, na sua opinião, valesse a pena, pela sua importância, tornarem-se os seus guardiões. A esse propósito ainda, e depois de estudarmos o texto de opinião e o argumentativo, propus a elaboração de um anúncio publicitário num projeto que envolvesse a técnica do Fanzine.

E cá estão eles. Orgulhão imenso nos meus meninos!










quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Simplesmente

 A lua continua a governar as noites e, quando é altura, ela brilha no céu. O sol, entristecido, dá o ar da sua graça. quando as nuvens atormentam outras paragens.

No entanto, nós já não temos abraços ternos, sentidos, para nos consolar ou entre gargalhadas. Eu deixei de pôr a mão no ombro dos meus alunos, quando me aproximo deles. Aliás, agora nem nos podemos aproximar dos nossos alunos. 

Assim, conforta-me a manta quentinha no sofá e o meu gato a dormir no meu colo, neste início  de inverno...




segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Sim, mas não...

Saramago imaginou a Península Ibérica à deriva no mar, na obra Jangada de Pedra. 

Saramago, o visionário, dá-nos uma imagem literal do que, metaforicamente, está a acontecer no nosso país: estamos a viver um momento assustador devido à pandemia; temos de implementar medidas excecionais... Ah, afinal, as medidas excecionais têm tantas exceções que fica tudo na mesma e, assim, continua tudo dependente de cada um de nós...

Quem poderá acreditar no que é dito, daqui para a frente, nas entidades oficiais?

Haja paciência! 




domingo, 25 de outubro de 2020

Vírus ao contrário

 Desta maleita que nos apoquenta e nos cerceia tanto e tanto, do que mais sinto falta é do toque.

Gosto de abraços, de beijinhos, de dar um piparote no ombro de um amigo quando me está a moer, de tocar no braço de um aluno quando me chegava junto dele para lhe dar uma explicação... Agora, nem junto dos alunos podemos estar, mas confesso que tenho de fazer um esforço hercúleo para disso me lembrar, quando me chamam, na aula...

Somos latinos, o toque faz parte do nosso ADN, das nossas rotinas, das nossas vidas. 

Para quando um vírus ao contrário, um que apele à solidariedade, à partilha, ao abraço?

 Tim Robberts/Getty Images 



 

Apostar na felicidade

 Não me ralo nada de ter a minha idade. Ela é minha, conquistei-a ao mundo, à vida, ao tempo. Nunca deixarei que atrasem a passagem dos anos pelo meu corpo! Cuido-me para ter saúde, provando que me amo assim, antiga e com os privilégios da antiguidade. 

Ter já muitos anos permite-me quase não fazer  fretes e, se os faço, é porque ainda acho que têm sentido. Também posso quase sempre escolher onde estou, com quem estou, durante quanto tempo...

Tenho a felicidade de amar a minha profissão, pelo que, ao fim destes anos todos, é raro o dia em que vou para a escola sem vontade e ainda retiro prazer de muitas das tarefas e atividades a ela inerentes.

Assim, nestes tempos estranhos e maus, que nada têm a ver com todos os anos todos que já vivi, precisamos de retirar felicidade de momentinhos, de atitudes espontâneas e possíveis, mas que nos recordam que somos humanos e seres gregários.




sábado, 24 de outubro de 2020

Que assim seja

 Hoje, neste dia em que o outono já entrou por estes lados do mundo adentro, a corrigir e a classificar trabalhos e a esbragulhar romãs, até me pareceu tocar em laivos de normalidade...

Que assim seja e que possamos sugar destes momentos toda a felicidade a que temos direito.




domingo, 11 de outubro de 2020

Pieces

 Se eu pudesse escolher um destes armários do ano passado, escolheria 


o último, aquele que refere "rapariga aos pedaços".

Pensando neste número tão redondinho do ano em que vivemos, deixei pedaços de mim no passado que me fazem falta agora. Ficaram restos em locais por onde passei e queria recolher; deixei momentos com gente com quem me cruzei e que queria recuperar, continuar; deixei pedaços de mim espalhados pelo meu mundo e por outros que não estão no "armário" do ano passado, estão em mim e não podem ser livres...

Posso escolher?

Cá por mim, a "nova normalidade" deveria ser molhada. Já que temos de levar com a Covid 19 e as máscaras sufocantes, o belo do álcool gel e o distanciamento social, então, que chova, pode até trovejar, vá, mas que a Terra toda seja refrescada, lavada, "purificada" por uma chuva benfaseja!

domingo, 27 de setembro de 2020

Só agora consegui, mãe...

 Desde que este mundo é nosso, a vida e a morte são irmãs que andam de mão dada, que não passam uma sem a outra. Não estão em pé de igualdade: assim que nascemos, podemos morrer; logo que morremos, não podemos nascer. 

Se vivemos mais ou menos, melhor ou pior, intensamente ou como um rio aprisionado nas margens, cada um sabe de si. Ou não.

Ser humano é poder experienciar emoções, vivências, doenças, fruir o tempo como podemos ou apenas como ele nos quer deixar viver.

Estes são tempos estranhos, dolorosos e intensos para mim. Acredito que não sou a única. Afinal, para todos nós, começa a ser banal vermos a vida e a morte de mãos dadas, olhando-nos de frente.

Às vezes, o único consolo é gritar ao coração que o amor permanece, que, quando alguém parte, pode ser o maior e derradeiro ato de generosidade para connosco.

No dia dos meus anos, foi a última vez em que eu e a minha mãe estivemos juntas. Voltei a vê-la na véspera da sua morte, mas ela já não esteve comigo.

Agora, está por aqui, ao jeito, quando eu preciso.